Quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Clima e Ambiente 5 min de leitura

Acordos de extração de minerais raros e água entre EUA e Paraguai vão gerar impactos negativos para o Brasil

Está claro que o Paraguai optou por manter o modelo econômico baseado na lógica extrativista e por abrir espaço para a livre atuação de agentes dos EUA em seu território. Algo que o Brasil tem resistido

Ilustração gerada pelo Blog da Ciência para a editoria Meio Ambiente e Clima; não representa dados do estudo.

A visita do subsecretário de Estado dos EUA Christopher Landau ao Paraguai, no dia 18 de outubro de 2026, resultou na assinatura de uma série de acordos de cooperação econômica, de segurança aérea e fronteiriça, e de exploração de mineiras raros no país vizinho.

A parceria abrange questões sensíveis e pode trazer repercussões para o Brasil em áreas distintas, como a energética, a ambiental e a de segurança nacional.

A construção de um centro de processamento de dados para inteligência artificial na região da Tríplice Fronteira é uma delas. Segundo Landau, a empresa norte-americana Crusoe e a paraguaia Araico, pretendem instalar um data center com ligação direta em Itaipu Binacional. O início das operações está previsto para o ano que vem. Isso significa que o Paraguai terá um comprador garantido para parte de sua energia excedente da usina Itaipu Binacional.

Conforme o acordo firmado há mais de 50 anos, a energia produzida por Itaipu é dividida entre Brasil e Paraguai em partes iguais. O Paraguai não consome toda a sua quota. Por isso, desde que começaram as operações, o excedente é vendido para o governo brasileiro a preços que o vizinho considera baixos. Em 2024, firmou-se um novo pacto em que os paraguaios poderiam negociar esse excedente no mercado livre brasileiro, diretamente com empresas privadas, a partir de 2027.

Essas tratativas da revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu ainda não estão concluídas. Por isso ainda pairam dúvidas sobre os futuros valores das tarifas e os possíveis impactos na distribuição de royalties aos municípios paranaenses. A instalação de outros data centers no Paraguai certamente, por sua vez, também vai influenciar os valores e a quantidade do excedente a ser negociada no mercado nacional, o que poderá impactar a tarifa final de energia dos lares brasileiros.

Uma minuta da compra de energia já está sendo discutida entre a empresa privada Araico e a Administración Nacional de Electricidad (ANDE), responsável pela geração, transmissão e distribuição de energia no país. Segundo a Araico, o valor será três vezes superior ao que o governo brasileiro vem pagando ao Paraguai. Contudo, esse valor será reajustado anualmente a 2,5% ou pela inflação dos EUA, o que for maior. Em 2025, ela foi de 2,7% enquanto a do Paraguai foi de 3,1%, o que parece ser um acerto desvantajoso para o país.

Do ponto de vista ambiental, a desconfiança é que o acordo não seja benéfico tanto para brasileiros como para paraguaios. Não há clareza sobre a mitigação dos impactos do data center ao meio ambiente. Pressupõe-se que haverá grande consumo de recursos hídricos para o resfriamento dos equipamentos e emissões incorporadas à cadeia de suprimentos, como já acontece com outras instalações do tipo. Por isso, o bem-estar da população local e a preservação dos recursos naturais da região, que tem uma das maiores atrações turísticas do Brasil, o Parque Nacional do Iguaçu, podem ser comprometidos se as regras para minimizar os impactos não forem discutidas publicamente pelas duas empresas privadas.

Outras frentes que necessitam atenção por parte de Brasília são os novos entendimentos bilaterais firmados na área de segurança, que implicam a presença ostensiva de agentes estadunidenses no país vizinho. O Paraguai já abrigou tropas dos EUA entre 2005 e 2006, quando houve rumores sobre a possibilidade da instalação de uma base americana permanente no país.

Contudo, Washington nunca se mostrou tão propenso a interferir diretamente na região, como ocorreu com o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela e os bombardeios no Equador em março passado. Além disso, o Senado paraguaio recentemente aprovou “privilégios, isenções e imunidades” para militares, integrantes do Departamento de Estado e seguranças privados estadunidenses que vierem a atuar no país. Ou seja, uma carta branca para a realização de operações na região fronteiriça com o Brasil.

O combate ao chamado narcoterrorismo tem se mostrado um ponto central da política do governo Donald Trump para o Hemisfério Ocidental, denominação do Departamento de Estado dos EUA para as Américas. Ações como o envio de navios de guerra para a região, os ataques contra barcos na costa sul-americana do Oceano Pacífico, o envio de tropas e até a ação conjunta com as Forças Armadas do Equador estão inseridas no escopo do Escudo das Américas. A iniciativa, do qual participa o Paraguai e outros 13 países da América Latina e do Caribe, objetiva manter a influência estadunidense na região, emulando a Doutrina Monroe.

Os objetivos de Trump para o continente estão declarados no National Security Strategy, publicado em novembro de 2025. Nele, a administração informa que deseja “um Hemisfério cujos governos cooperem conosco contra carteis narcoterroristas e outras organizações criminosas transnacionais”. É sabido que as forças de segurança paraguaia e brasileira têm cooperado com Washington, mas parece que isso não tem sido suficiente para o atual mandatário dos EUA.

O documento coloca bastante ênfase nos recursos naturais, abundantes na América Latina. Por isso, a demanda é que a região se mantenha “livre da incursão estrangeira hostil ou da posse de e que apoiam cadeias de abastecimento críticas”. Afirma-se ainda que a administração de Trump quer garantir “o acesso contínuo a locais estratégicos importantes”. No acordo assinado com o Paraguai, as empresas estadunidenses têm permissão para explorar minerais raros, como as reservas de urânio do Paraguai.

Outro item mencionado na viagem de Landau é o envio de US$ 6,2 milhões para investimento no combate ao crime organizado transnacional e no monitoramento do espaço aéreo e das fronteiras. Para dar apoio à cooperação entre ambos os governos, está prevista a criação do primeiro escritório do Bureau of International Narcotics and Law Enforcement Affairs (INL) no Cone Sul, que será “um hub regional para a coordenação de programas do INL” na região e, portanto, terá o Brasil sob sua jurisdição.

Muitas frentes previstas pelo acordo ainda carecem de maior transparência. Por outro lado, parece estar claro que o Paraguai optou por manter o modelo econômico baseado na lógica extrativista e por abrir espaço para a livre atuação de agentes dos EUA em seu território. Algo que o Brasil tem resistido.

Isabelle Christine Somma de Castro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Procedência

Fonte original
Acordos de extração de minerais raros e água entre EUA e Paraguai vão gerar impactos negativos para o Brasil, The Conversation Brasil, 30 de outubro de 2026.
Autoria
Isabelle Christine Somma de Castro, Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri), Universidade de São Paulo (USP); Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Direitos
Reprodução autorizada por licença aberta. CC BY-ND 4.0 — texto reproduzido na íntegra, sem alterações. Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation Brasil sob licença Creative Commons (CC BY-ND 4.0).

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