Comunicação de riscos de enchentes: proteger a população vai além de ter sistemas de alerta
É fundamental que os alertas cheguem de forma oportuna, clara e útil a todas as pessoas em risco e que elas saibam como agir
Neste artigo
Nas últimas semanas, uma massa de ar fria batizada de “Adam” provocou, ao passar, uma onda de tempestades e chuvas intensas que afetou principalmente o leste e o sul da Espanha. As chuvas obrigaram a ativação do Plano de Prevenção de Riscos de Inundações na Andaluzia e do Plano Especial de Emergências por Inundações da Catalunha (INUNCAT), além de emitir diversos alertas por meio do sistema Es-Alert.
A situação não é nova. Na verdade, enchentes fazem parte do panorama climático mediterrâneo, mas as chuvas estão cada vez mais intensas e prolongadas. Nesse contexto, os sistemas de alerta precoce representam um instrumento fundamental para proteger a população, mas a comunicação dos riscos vai além disso. Pois de nada adianta alertar se as pessoas não têm clareza sobre como devem agir.
Os sistemas de alerta precoce salvam vidas
Em 7 de novembro de 2022, no âmbito da cúpula de líderes mundiais na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (a COP27), o secretário-geral da ONU lançou o plano de ação da iniciativa “Alertas Precoces para Todos” ( Early Warning for All, EW4All): “Faço um apelo para que todos os habitantes da Terra tenham acesso a sistemas de alerta precoce dentro de cinco anos, com a prioridade de apoiar, em primeiro lugar, os mais vulneráveis”.
Naquele momento, o plano já havia recebido o apoio de uma declaração conjunta assinada por 50 países e um investimento inicial de US 16,7 bilhões) , que posteriormente seria complementado com recursos destinados à adaptação. Seu objetivo era garantir que todas as pessoas do planeta estivessem protegidas por sistemas de alerta precoce contra fenômenos meteorológicos, hidrológicos e climáticos perigosos até o final de 2027.
A iniciativa surgiu a partir do alerta da Organização Meteorológica Mundial (OMM) de que, embora as catástrofes relacionadas ao clima tivessem quintuplicado em 50 anos, o número de vítimas estava diminuindo graças à melhoria dos sistemas de alerta.
Primeiras iniciativas na Europa e na Espanha
Na Europa, esse apelo não era totalmente novo. Em 2001, a Comissão Europeia havia criado o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia (MPCU) para melhorar a cooperação, a preparação e a resposta a catástrofes.
Seis anos depois, em 2007, a rede de serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais da Europa, a EUMETNET, lançou internacionalmente o MeteoAlarm, que permitia (e continua permitindo) consultar os alertas de perigo emitidos por diversos serviços meteorológicos nacionais europeus por meio de um sistema harmonizado de cores, o mesmo utilizado tanto pela Agência Estatal de Meteorologia da Espanha (AEMET) quanto pelo Serviço Meteorológico da Catalunha (SMC) e pelos demais serviços regionais do país.
De fato, na Espanha, a Lei de Proteção Civil de 1985 já previa a criação de uma Rede Nacional de Alerta. E também na década de 80, o Instituto Nacional de Meteorologia já havia desenvolvido um sistema incipiente de alertas, o PREVIMET, que evoluiria até dar origem, em 2006, ao sistema de alertas Meteoalerta.
Os alertas meteorológicos e os alertas de proteção civil são sistemas diferentes, mas estão intimamente ligados quando se trata de informar a população sobre riscos relacionados a fenômenos meteorológicos.
A comunicação nos sistemas de alerta precoce
Então, qual é a novidade do EW4All na Europa? Ela pode ser resumida em quatro pilares.
O sistema EW4All propõe uma estratégia que vai além dos avisos e alertas e que se concretiza ao atribuir um papel relevante à comunicação. Além disso, tem a vantagem de poder ser aplicado desde a escala global, com a participação de organismos como o Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR), até a escala municipal.
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O primeiro pilar baseia-se no conhecimento do risco de desastres. É a parte mais científica, que inclui os avanços na melhoria dos modelos de previsão de fenômenos hidrometeorológicos adversos e de seus impactos. Inclui também a garantia do acesso a dados científicos, informações e conhecimentos confiáveis e compreensíveis sobre os riscos. A necessidade de uma boa comunicação entre especialistas, que permita avançar de forma eficiente e rigorosa, é fundamental aqui, assim como abordar o risco de desastres a partir de uma perspectiva holística que abranja todas as suas dimensões.
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O segundo pilar é constituído pela detecção, observação, monitoramento, análise e previsão de perigos hidrometeorológicos. Se o pilar anterior estava mais ligado à pesquisa e ao desenvolvimento, este se concentra na operacionalidade, uma vez que deve garantir sistemas de vigilância e previsão confiáveis para antecipar os riscos e sua evolução. Isso inclui tanto os avisos quanto os alertas. A comunicação e a coordenação entre órgãos relacionados, como serviços meteorológicos, hidrológicos e de proteção civil, bem como a gestão de situações de crise, constituem a maior parte deste pilar.
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O terceiro pilar concentra-se na divulgação e comunicação de alertas. Baseia-se na implementação de uma abordagem centrada nas pessoas, para que os avisos cheguem de forma oportuna, clara e útil a toda a população em risco. Os meios, o quando, o como e o conteúdo das mensagens são aqui fundamentais. Em 2018, foi promulgada a diretiva europeia que estabeleceu os requisitos para alertas públicos por meio de comunicações móveis, como é o caso do Es-Alert. Um equilíbrio difícil, considerando que a previsão de situações extremas está sempre marcada pela incerteza.
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O quarto e último pilar é fundamental para que tudo o que foi mencionado anteriormente seja bem-sucedido. Trata-se da preparação e capacidade de resposta. É preciso garantir que as comunidades e as autoridades saibam como agir após receberem um alerta para salvar vidas e reduzir danos, sem esquecer as pessoas mais vulneráveis.
Mitigar as enchentes e se adaptar ao seu aumento exige uma mudança de percepção e uma resposta proativa da população. A comunicação entre o conhecimento especializado, os processos de criação comunitária e a ciência cidadã desempenha aqui um papel decisivo. Uma boa capacidade de resposta e uma percepção correta podem salvar muitas vidas.
Este artigo faz parte de uma série do The Conversation España dedicada a compreender melhor os riscos, as crises e as emergências, bem como o papel fundamental da comunicação para enfrentá-los. É fruto da colaboração com a Cátedra da Universidade de Barcelona-Diputació de Barcelona sobre Comunicação Clara Aplicada às Administrações Públicas.
María del Carmen Llasat Botija recebe financiamento da Agencia Estatal de Investigación de Espanha.
Procedência
- Fonte original
- Comunicação de riscos de enchentes: proteger a população vai além de ter sistemas de alerta, The Conversation Brasil, 29 de outubro de 2026.
- Autoria
- María del Carmen Llasat Botija, Catedrática de Física de la Atmósfera, Departamento de Física Aplicada, Universitat de Barcelona
- Direitos
- Reprodução autorizada por licença aberta. CC BY-ND 4.0 — texto reproduzido na íntegra, sem alterações. Este artigo foi publicado originalmente no The Conversation Brasil sob licença Creative Commons (CC BY-ND 4.0).